O Estado de S.Paulo − 12 de janeiro de 2013
Agarrando uma oportunidade , a condenação de alguns políticos que o lideram, o Partido dos Trabalhadores postula novamente o controle da imprensa .
Existem graves distorções no jornalismo atual , devendo ele ser tratado com rigor pelos interessados - leitores , ouvintes , telespectadores - na forma e no conteúdo das notícias .
Muitas críticas , no entanto , têm origem em personalidades e grupos que desejam impor programas para perpetuar seu poder .
De onde vem a tese de que é preciso regular a imprensa ?
Lembremos o jurista Carl Schmitt, lido por Francisco Campos , ministro de Vargas que no Estado Novo normatizou os jornais .
O alemão
afirma que , na busca de formar a mente pública , o audiovisual ameaça o Estado . O poder político deve ter o monopólio dessa técnica . "Nenhum Estado liberal deixa de reivindicar em seu proveito a censura intensiva e o controle sobre filmes e imagens , e sobre o rádio . Nenhum Estado deixa a um adversário os novos meios de dominação das massas e formação da opinião pública ".
O Estado , diz Schmitt, deve controlar os meios de comunicação : "Os novos meios técnicos pertencem exclusivamente ao Estado e servem para aumentar sua potência ".
O ente estatal "não deixa surgir em seu interior forças inimigas. Ele não permite que elas disponham de técnicas para sapar sua potência com slogans como 'Estado de direito ', 'liberalismo ' ou um outro nome " (Schmitt em 1932, cf. O. Beaud: Os Últimos Dias de Weimar).
A raiz histórica da tese é venenosa .
Na Alemanha preconizada por Schmitt o nome para a regulamentação da mídia foi a Gleichschaltung (impor à imprensa , de modo uniforme , a ideologia do partido ).
Em 1933 existiam no país 4 mil diários e 7 mil revistas .
O Reich estatizara a maioria das estações de rádio (1925).
A Reichs Rundfunk Gesellschaft (Sociedade de Comunicação Radiofônica do Reich) foi posta em 1932 sob os comissários de Franz von Papen, o que facilitou a Gleichschaltung.
Tal política foi denunciada em 1938 por Stephen H. Roberts (The House
that Hitler Built), mas os olhos estavam cegos para
o arbítrio . E vieram a regulamentação do rádio e do serviço postal , a centralização do controle no Ministério da Propaganda , a imposição da conformidade aos funcionários .
Foram demitidos os indesejáveis (judeus especialmente ).
Todos deveriam aceitar os ditames do governo e do partido . Goebbels demitiu os antigos comissários do rádio .
Poucas leis foram necessárias para regular a mídia . Ouvir rádios estrangeiras levaria à pena de morte , segundo o Decreto Sobre Medidas Extraordinárias (1.º/9/1939).
Em 1937 existiam 8 milhões de receptores de rádio na Alemanha, ante 200 aparelhos domésticos de televisão dois anos depois .
Nos Jogos Olímpicos de 1936, 162.228 pessoas foram às salas que exibiam programas televisionados.
O partido e o governo usavam, sobretudo , o rádio e o filme .
Ao se impor à mídia , Goebbels jogou a violência física sobre ombros alheios : "Não usamos nenhuma forma de coerção . Se necessária a deixamos para outros departamentos ".
Segundo ele , a propaganda ("jornalística "...) sem elos com a cultura é cansativa e ineficaz . Seria preciso uni-la ao entretenimento , batizado com sarcasmo , contra as Luzes do século 18, de Aufklärung. Você não pode sempre bater o tambor , dizia, "porque o povo gradualmente se acostuma ao som e não mais o registra (...) desejamos ser os condutores de uma orquestra polifônica de propaganda ".
Os instintos primitivos da massa despertam e são movidos por truques simples e claros .
A mídia regulamentada teve seu papel no extermínio dos judeus , embora o regime mantivesse o segredo como arma .
Himmler, discursando em Poznan (4/10/1943), disse que o Holocausto era "um capítulo glorioso da SS que nunca chegou a ser escrito ".
A leitura dos jornais sob controle mostram algo diferente . A popularidade de Hitler, é certo , não se deveu à mídia ventríloqua , mas é falso dizer que jornais "independentes " (Frankfurter Zeitung,
Berliner Tageblatt, etc.) se opuseram ao regime .
O encanto por Hitler seguia ao lado da impopularidade do seu partido .
Segundo I. Kershaw (O Mito de Hitler: o culto do Führer e a opinião popular ), os alemães atribuíam ao Führer os sucessos anteriores à guerra .
A "corrupção , a imperícia administrativa e problemas de suprimento não se deviam a ele , mas ao partido ".
A mídia fantoche fazia do líder um inimputável . Os jornais regulamentados apresentavam-no como a pessoa que acabara com o desemprego, vencera a corrupção , levara a Alemanha ao poder europeu .
Os fracassos eram atribuídos aos inimigos , como os judeus . (Informações preciosas encontram-se em Bruce A. Murray, Framing the
Past: The Historiography of German Cinema and Television.)
E hoje , no mundo e no Brasil?
Em greve inédita contra a censura , um jornal do próprio governo chinês (Global Times ), em texto dos editores afirma: "A realidade é que antigas políticas de regulação da imprensa não podem continuar como estão. A sociedade está progredindo e a administração deve evoluir " (BBC, 7/1/2013).
Depois do nazismo , do Pravda (o jornal mais mentiroso da História ), das ditaduras Vargas e de 1964, a sociedade evoluiu, salvo para os que comparam sua ideologia aos oráculos .
Os deuses exigem espinhas e almas quebradas.
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