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Telegramas que fundamentam este artigo: 10BRASILIA5 – 10BRASILIA7 – 10BRASILIA61 – 09BRASILIA1113 – 09BRASILIA1184 – 09BRASILIA1195 – 09BRASILIA1210 – 09BRASILIA1262 – 09BRASILIA1342 – 09BRASILIA1411 – 09BRASILIA1447 – 09SAOPAULO619 – 09STATE100957 –


Natalia Viana 17/12/2010 (texto corrigido devido aos erros ortográficos)
Quando Manuel Zelaya, o presidente deposto por um golpe em Honduras, entrou na embaixada brasileira, o Itamaraty foi buscar ajuda dos americanos. É o que revelam documentos obtidos pelo WikiLeaks.
Segundo os telegramas, o chanceler Celso Amorim acreditava que “só os americanos podem influenciar no que acontece em Honduras”, enquanto os EUA achavam que o Brasil estava “despreparado” para lidar com a situação.
O embaixador do Itamaraty Renato de Ávila Viana foi pedir proteção dos EUA para garantir a segurança, lamentando que o Brasil não tinha “o tipo de segurança que a embaixada dos EUA tem, os fuzileiros navais”.
Os documentos revelam ainda detalhes sobre o que aconteceu, de fato, no dia em que Zelaya se instalou na embaixada. Por exemplo, apontam que quem autorizou a entrada foi o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães e que o Brasil ofereceu asilo a Zelaya.
Golpe
O golpe que tirou Manuel Zelaya do poder em Honduras foi um golpe lento. Começou em 28 de junho de 2009, quando o Exército, obedecendo mandado do poder judiciário, o enviou para exílio forçado, e só terminou no final de novembro, depois das eleições presidenciais que deram a vitória ao atual presidente Porfírio Lobo.
O Brasil foi envolvido no centro dos acontecimentos quando, em 21 de setembro, depois de passar três meses fora do país, Zelaya voltou à capital Tegucigalpa e se refugiou na embaixada brasileira, onde permaneceu por quatro meses.
Mas antes disso, nos dias 4 e 5 de agosto, o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, General James Jones visitou, o Brasil em uma visita que foi pautada principalmente pela crise de Honduras. Na visita, o chanceler Celso Amorim cobrou mais empenho dos americanos.
Segundo Amorim, Chavez quis fazer de Zelaya “um mártir”, mas o governo brasileiro o convenceu que “somente os EUA podem influenciar o que acontece em Honduras”.
Mas, para ele, o governo dos EUA havia ficado em ações superficiais e havia feito concessões demais a Roberto Micheletti, o presidente do Congresso que assumiu o poder.
Como Zelaya chegou à embaixada
Um telegrama enviado por Hillary Clinton à embaixada brasileira em Brasília revela com detalhes o que aconteceu naquele dia 21 de setembro. )
O relato foi feito por Celso Amorim em reunião com o representante americano para o hemisfério ocidental Thomas Shannon (hoje embaixador no Brasil) e o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Jose Miguel Insulza, além de representantes de outros governos na região.
Amorim explicou que entre meio-dia e uma hora, o representante brasileiro na embaixada ligou para Brasília dizendo que a presidente do parlamento da América Central havia perguntado se a embaixada receberia Zelaya. Recebeu ordem de acolhê-la. Pouco depois, ligou de novo perguntado se deveria receber Zelaya.
Outro telegrama completa o quebra-cabeça. Nele, o chefe do departamento da América Central e México do Itamaraty, Renato de Ávila Viana, relata que quem autorizou a entrada de Zelaya foi o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães porque “o governo brasileiro apóia Zelaya”.
“Nossa embaixada é sua casa, bem-vindo”, disse Viana ao hondurenho quando o viu. Zelaya respondeu: “Obrigada ao seu governo pelo apoio contínuo desde que eu fui expulso. Esse é meu retorno oficial ao meu país e eu estou pronto para anunciar que estou de volta”.
Zelaya teria ligado para Amorim dizendo estar comprometido com uma estratégia pacífica e pediu permissão para usar a embaixada como base para o diálogo. O chanceler permitiu.
Avisado do fato, Lula pediu que a entrada de Zelaya fosse mantida em segredo até que o presidente venezuelano Hugo Chávez e o próprio Zelaya fizessem o anúncio oficial.
Pelo seu lado, o grupo que tinha tomado o poder começou a pressionar. Enviou um comunicado afirmando que o Brasil seria “diretamente responsável” por qualquer violência que resultasse das provocações vindas da embaixada.
Viana ainda contou que o Brasil ofereceu asilo a Zelaya, mas ele recusou.
Sem um plano, Brasil corre para os EUA
Na manhã do dia 23, o próprio presidente Lula e o Chanceler Celso Amorim haviam ligado para Zelaya pedindo que ele contivesse seus apoiadores para evitar um confronto com as forças armadas de Honduras.
Ao mesmo tempo, o embaixador brasileiro procurava o Departamento de Estado em Washington, segundo um telegrama enviado no dia 23 de setembro.
Nele, a diplomata Lisa Kubiske relata um telefonema no qual o chefe do departamento de América Central e México do Itamaraty, Renato de Ávila Viana, chamou a situação de “tenebrosa”.
“Depois de várias ligações nos últimos dois dias finalmente conseguimos falar com Viana, que agora pareceu estar com muita vontade de falar”, descreveu Lisa.
Água, telefone e luz haviam sido cortados e a embaixada estava cercada pelas forças de segurança hondurenhas.
Viana disse estar claro que a estratégia era “asfixiar a embaixada”. Para ele, uma invasão era improvável, mas não impossível.
O documento também revela que a embaixada brasileira pediu ajuda à embaixada americana em Tegucigalpa. Eles pediram que os americanos ajudassem a garantir a segurança do local.
Viana lamentou que o Brasil não tinha “o tipo de segurança que a embaixada dos EUA tem, os fuzileiros navais”.
“A abertura dos oficiais do Itamaraty, a preocupação que a situação piore, além da resistência tradicional do Brasil em tomar posições ou ações controversas na região, parecem confirmar que os brasileiros foram pegos de surpresa por Zelaya e não estavam preparados para lidar com as conseqüências”, analisa Kubiske. “Eles claramente temem que a situação fique desesperadora e vêem os EUA como chave para adquirir ajuda imediata e assistência internacional”.
Dias depois, o Brasil voltaria a pedir ajuda, na forma de vans que possibilitariam entrada e saída do seu pessoal da embaixada. A embaixada brasileira só estava conseguindo se comunicar com os militares hondurenhos graças aos esforços dos EUA, segundo Viana.
O telegrama também relata que o embaixador Gonçalo Mello Mourão teria informado que o governo brasileiro acreditava que Chavez estava por trás da ida de Zelaya à embaixada – e estava bastante irritado com isso.
“O Brasil está perdido”
Para a diplomacia americana, o Brasil não tinha uma estratégia para lidar com a situação em Honduras, como mostra outro telegrama de Lisa Kubiske no final de outubro.
“O Brasil parece estar perdido sobre o que fazer agora”, diz ela “É digno de nota que o governo não tenha feito nenhum esforço, aparentemente, para buscar os países da região ou ter um papel mais assertivo em buscar uma solução. Em vez disso, o Brasil está firme no ‘banco de trás’ e procura os Estados Unidos, a OEA e a ONU para que defendam seus interesses”.
No meio da crise, a representação americana investigou o que pensavam estudiosos e líderes políticos brasileiros sobre a atuação do Brasil, conforme outro telegrama enviado em 27 de outubro de 2009 pelo consulado em São Paulo.
Funcionários do consulado consultaram o professor da USP José Augusto Guilhon de Albuquerque, os professores Marcus Freitas e Gunther Rudzit da FAAP, o general Alberto Santos Cruz e os petistas José Américo e Ruy Falcão.
“Pesquisadores acadêmicos neste estado majoritariamente pró-PSDB chamaram o abrigo dado pelo governo brasileiro a Zelaya de aventureiro, contraproducente e contraditório à tradição do país de não-intervenção”, avalia o ex-cônsul Thomas White.
Por outro lado, os petistas defenderam a postura brasileira, dizendo que o golpe poderia ter um efeito dominó sobre outros governos de esquerda. Para ele, “pelo menos alguns integrantes do PT agora vêem os governos de esquerda eleitos democraticamente como irmãos menores que precisam ser protegidos”.
Em fevereiro, Brasil já aceitava Pepe Lobo.
O tom do governo brasileiro foi abrandando nos meses seguintes.
Um telegrama de fevereiro de 2010 descreve uma reunião no dia 8 em que Marco Aurélio Garcia teria pedido ao embaixador americano “certa reabilitação” de Zelaya, “um pouco mais do que uma anistia”.
Garcia, segundo o telegrama, disse que Zelaya era conservador na essência mas agira como catalisador do movimento popular, e portanto o ressentimento causado pelo golpe ainda poderia desestabilizar Honduras a longo prazo.
Garcia contou ainda que, embora não tivesse reconhecido como legítimo o governo de Porfírio Lobo, o Brasil já mantinha comunicação com ele, através de troca de comunicados diplomáticos.



